Luisburgo reflete resultado das urnas do Brasil



 

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Minas Gerais, pela diversidade do perfil de sua população, foi um bom termômetro para o resultado das eleições presidenciais deste ano. O retrato do mapa eleitoral mineiro se assemelha ao brasileiro, que concentrou a maior parte dos votos para Dilma Rousseff ao Norte e maior parte dos votos para Aécio Neves ao Sul. Mas, das 853 cidades do estado, uma em especial foi o reflexo, quase idêntico, da votação no país: a pequena Luisburgo, na Zona da Mata.
 
No Brasil, a candidata petista e o candidato tucano tiveram, respectivamente, 51,64% e 48,36% dos votos válidos do segundo turno. Na cidade mineira, os índices são praticamente os mesmos – 51,63% para Dilma e 48,37% para Aécio. Até a porcentagem de abstenção foi parecida. No país, 21,10% do eleitorado não compareceu às urnas. Em Luisburgo, a ausência foi de 21,14%.
 
Entretanto, se o número de eleitores brasileiros chega a quase 143 milhões, o da cidadezinha mineira é de pouco mais de 5 mil pessoas. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), cerca de 6 mil habitantes vivem no município, que foi emancipada de Manhuaçu na década de 1990 e que tem o café como a principal força de sua economia.
 
O resultado acirrado das eleições presidenciais em Luisburgo é logo percebido no centro da cidade, que concentra o comércio, a principal praça e a igreja dedicada ao padroeiro São Luís Gonzaga. Apesar de muitas propagandas de deputados estaduais e federais espalhadas pelas casas, são poucas as publicidades de Dilma e Aécio vistas no município, hoje governado pelo PT.
 
A vendedora e universitária Maria Thaís de Andrade, de 20 anos, foi responsável por um dos 1929 votos recebidos por Aécio Neves no segundo turno do município. “Votei no Aécio pelos projetos dele e porque não concordava muito com os planos da Dilma”, justifica. A jovem, que é católica, diz que, entre os motivos de discordância da plataforma da presidente reeleita, estão o casamento gay e o aborto – práticas em relação às quais a estudante se posiciona contrariamente.
 
Até as 14h, Maria Thaís trabalha em uma loja, no fim da tarde, vai para a vizinha Manhuaçu, onde faz faculdade de psicologia. Ela conta que o curso é pago com auxílio do Fundo de Financiamento Estudantil (Fies). Antes, já havia feito um curso de auxiliar administrativo pelo Pronatec. Apesar de beneficiada por programas do governo federal, ela tem uma postura crítica em relação à política atual. “Ela [Dilma] cria muitas bolsas, e o pessoal está ficando acomodado”, diz.  A jovem acredita que a vitória do PT no município pode ter sido alavancada pelos beneficiários de projetos do governo, que teriam medo de perder a ajuda que vêm recebendo. “Eu acho que o Aécio não iria tirar os benefícios”, contrapõe.
 
Próximo à loja onde ela é vendedora, fica a farmácia em que a universitária Júlia Cristina Moreira de Abreu, de 18 anos, trabalha. Eleitora de Dilma, ela faz parte do grupo de 2.059 pessoas que digitou o 13 nas urnas no último domingo. Assim como a apoiadora de Aécio, Júlia faz faculdade em Manhuaçu. O curso de ciências biológicas também é custeado por meio do Fies. Apesar da semelhança na rotina das duas, que se dividem entre trabalho e estudo, a visão sobre os programas sociais do governo Dima, entretanto, é bastante diferente.
 
Júlia trabalha desde os 14 anos e quer ser professora em Luisburgo. Para ela, sem benefícios a que tem acesso, sua vida estaria “sem visão para o futuro”. Além do Fies, ela conta que a família faz parte dos beneficiários do Minha Casa, Minha Vida e do Programa Nacional de Desenvolvimento da Agricultura Familiar (Pronaf). “Sem eles, eu não ia estar estudando, nós não íamos ter a casa, não íamos ter moto, meu pai ia estar secando café no terreiro de chão”, pontua.
 
Ela acredita que, se eleito, Aécio governaria para os ricos. “O projeto dela [Dilma] é para ajudar gente da classe mais pobre. Eu acho o Aécio ia fazer coisa para rico”, compara.
 
Sem eles, eu não ia estar estudando, nós não íamos ter a casa, não íamos ter moto, meu pai ia estar secando café no terreiro de chão.
 
Júlia, atualmente, mora na zona urbana, mas sua família é da zona rural de Luisburgo. Segundo dados do IBGE, cerca de 70% da população vive em comunidades rurais, que, normalmente levam nome de córregos. Um destes povoados é o córrego Fortaleza.
Na manhã desta terça-feira, a concentração de mulheres em frente a uma das casas desta comunidade chamava a atenção. A aglomeração no local contrastava com ruas – de terra – praticamente vazias. O avental que todas vestiam logo dava pistas do que se tratava aquele encontro, iniciado com a oração do “pai nosso”.
 
O que reunia aquelas mulheres, de diferentes idades, era um curso de corte e costura do Pronatec e o que unia praticamente todas era o voto. Das 15 alunas, 13 ajudaram a reeleger Dilma. As aulas são ministradas pela instrutora Marília Soares Martins. Ela diz que, de 0 a 10, dá nota 9 para o interesse das alunas. “É uma das melhores turmas que já peguei”, destaca.
 
Entre as alunas “dilmistas”, está Caroline Érica de Souza Côrtes, de 21 anos. Depois de passar uma temporada fora do córrego Fortaleza, período em que morou em cidades de Minas e do Espírito Santo, a jovem voltou para a casa dos pais, mas já vive a expectativa de se mudar novamente. Mas, desta vez, a mudança será para bem perto. Ela é uma das pessoas que são beneficiadas pelo Minha Casa, Minha Vida na comunidade. A nova morada de Caroline ainda está em construção. Ela conta que a irmã dela, que também está inscrita no curso de corte e costura, já vive em uma das casas do programa, com o marido e com filho.
 
Caroline estudou até o 3º ano do ensino médio e diz que não quis fazer faculdade porque planeja abrir um negócio próprio. Ela acredita que a vida dela e de pessoas da região melhorou nos últimos anos. “Hoje todo mundo tem moto, tem smartphone, notebook”, lista. Em contrapartida, ela crê que, caso Aécio Neves tivesse chegado à presidência, o tucano beneficiaria, principalmente, empresários. “Porque ele [Aécio] gosta de rico, a campanha foi toda baseada em empresário, o pobre ia estar ‘ferrado’”, conjectura.
 
Nem todos os habitantes de Luisburgo compartilham do pensamento da jovem Caroline. O cafeicultor José dos Santos diz que, de coração e enquanto estiver vivo, vota no PSDB. “Acho que a melhoria do país começou no PSDB, e o PT só fez a continuidade. O governo PSDB era melhor, o de agora só segurou e não melhorou”, compara.
 
O agricultor era meeiro até a década de 1990, e, desde então, tem seu próprio terreno para plantio de café. Ele conta com recursos do Pronaf, mas diz não estar totalmente satisfeito com o programa. Santos também não anda contente com o preço da saca de café. Segundo ele, por causa da disputa eleitoral, o comportamento da bolsa de valores causou reflexo no preço do produto. “Quando Aécio estava à frente das pesquisas, o café estava valendo R$ 500 a saca, hoje o valor deve estar em torno de R$ 415”, diz.
 
A preferência do agricultor por Aécio também têm outros motivos; um deles é a religião. “Você já ouviu Dilma falar em Deus ao menos uma vez?”, questiona. Para Santos, um presidente católico, como o tucano, seria melhor para o Brasil.
 
Em Pedra Dourada, Aécio Neves também teve votos na casa de Andreia Pereira Rodrigues, de 30 anos. Ela e o marido optaram pelo 45. A chegada do asfalto na estrada que liga Luisburgo a Manhuaçu, durante a gestão do PSDB em Minas, foi uma das razões levadas em conta pela família para decidir o voto.
(foto: Raquel Freitas G1)
 
Independentemente da opção por Dilma e Aécio, os moradores de Luisburgo compartilham a vontade, de sempre, ter uma vida melhor. Muitos eleitores ouvidos pelo G1 na cidade apontaram a saúde e segurança como áreas que requerem mais atenção dos governantes. Mas, o eleitor de Dilma e agricultor José Viera de Souza, de 52 anos, tem outra prioridade. Ele quer que as leis no país sejam mais rígidas e valham para todos.
(foto: Raquel Freitas G1)
 
(foto: Raquel Freitas G1)
 
(foto: Raquel Freitas G1)
 
Raquel Freitas Portal G1 Minas Gerais













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